Recursos Humanos e Formação

Os Grandes Desafios Atuais para uma Gestão Intercultural

AntonioTupinamba

Os Grandes Desafios Atuais para uma Gestão Intercultural

Autor

Antonio Caubi Ribeiro Tupinambá

Doutor em Psicologia pela Justus Liebig Universität Giessen, 1999; Pós-Doutorado em Psicologia Organizacional e do Trabalho na Universidade Complutense de Madrid (2005) Professor visitante na Universidade de Lüneburg – Alemanha (2011);   Pró-Reitor de Extensão. Professor Titular da U.F.C. e Coordenador da Rede de Estudos e Pesquisas sobre Liderança e Empreendedorismo RINEPE-UFC e do Projeto de Extensão “Estudos em Psicologia Política – Polis”.

Descubra os grandes desafios para uma gestão intercultural. Com a imigração a crescer ano a ano, qual será o melhor método para integrar os novos colaboradores nas organizações?

Novos contingentes migratórios desafiam as organizações para encontrar a melhor forma de cumprir o compromisso de adaptação e viabilizar sua participação na sociedade principalmente por meio da inserção no mundo do trabalho, da qualificação profissional e adequação de habilidades laborais já pré-existentes. Recursos teóricos e práticos oriundos da gestão transcultural podem ajudar na abordagem, compreensão e tratamento da experiência da população recém-chegada em território estrangeiro e ainda desconhecido, bem como na integração bem-sucedida pela via do trabalho. Liderança transcultural, mosaico multicultural, cultura, gestão intercultural, talentos expatriados e repatriados são conceitos que podem se tornar recursos e estratégias nas novas organizações que acolhem, integram e desenvolvem potenciais e que desenham um novo modelo de gestão de recursos humanos.

Qual é a dimensão da imigração?

Se fosse uma população de um país, seria o quarto maior das Américas, perdendo apenas para os Estados Unidos, Brasil e México. Seria um país com quase o dobro dos habitantes da Argentina, mais que o dobro do Canadá e 30 milhões a mais que a Colômbia. Fosse a população de uma nação européia, se colocaria imediatamente após a Alemanha. Caso consideremos todos os países no mundo seriam apenas 19 com um número maior de habitantes. Essas comparações revelam a dimensão da tragédia humana em que vive grande parte dos 80 milhões de imigrantes, um número que só cresce a cada ano. Muitas delas estão em fuga dentro do próprio país, abandonam zonas de perigo, com guerra, fome, perseguição religiosa e por conta de outros males, principalmente na ação (des)humana.

O Desafio da Pandemia

A situação atual da migração se torna ainda mais complexa devido à gravidade da pandemia global. Os problemas se agravam e tornam a luta contra o vírus ainda mais desafiadora. Como lidar com a necessidade de cuidados exigidos pela pandemia em situação de fuga e na vida precária em trânsito, passando por acampamentos de refugiados, abrigos lotados ou até mesmo na rua enquanto se espera uma acolhida qualquer? Há, portanto, uma emergência dupla e inimaginavelmente grande: conflito e deslocamento, bem como a pandemia Covid-19 e a crise econômica global por ela desencadeada. Essa nova realidade dos refugiados em um cenário de pandemia acrescenta outras dificuldades aos órgãos que tentam ajudar os atingidos e também aos países anfitriões, muitas vezes já sobrecarregados com problemas domésticos.

O Desafio da Guerra da Ucrânia

Podemos estar testemunhando um outro horizonte com o atual fluxo migratório ucraniano, quando se desenhava uma situação temporária e reversível. Os países recebem grandes contingentes de imigrantes ucranianos que tentam pelo menos sobreviver em um primeiro momento para depois encarar outros desafios. Ainda que cheguem a países mais estruturados, poucas são as experiências que trazem bons resultados. Têm que enfrentar novas barreiras em lugares desconhecidos, uma torre de Babel, um mundo repleto de desafios, medo e a dúvida se haverá algum acesso a alimentação, moradia, educação, saúde e trabalho.

Algo novo ocorre ao superar os muitos obstáculos da política de imigração em diferentes países, que diferentemente do que ocorria em outros fluxos migratórios, tornaram-se mais acolhedores e disponíveis.

O Desafio da Guerra para Portugal

Portugal acolhe esse novo contingente migratório e vai enfrentar o desafio de não repetir antigas fórmulas para assim lidar desta feita, eficazmente, com o grupo de ucranianos que tem características e expectativas muito específicas. Os que querem viver em Portugal são atraídos por um programa de regularização imediata que garante visto de trabalho e acesso ao sistema de saúde e segurança social. A melhor forma de cumprir esse compromisso e viabilizar uma adaptação se dará, por meio da inserção no trabalho, na qualificação profissional e atualização das habilidades laborais que já trazem consigo.

Há, contudo, um grande desafio para que isso aconteça no contexto das organizações e do mundo laboral. A oferta de cursos de línguas, qualificação para o trabalho e ajuda para a adaptação à nova vida, promoção do reconhecimento de competências formais e informais constituem um conjunto de instrumentos na experiência dos que chegam e devem ser integrados ao mercado.

O Desafio dos conceitos de Multiculturalidade

As estratégias para lidar com esse novo contingente de trabalhadores que geram integração, realização pessoal e profissional e de equipe pairam, portanto, no conceito de organização intercultural. Hoje o que se conhece sobre internacionalização de empresas, a questão dos expatriados, a discussão da liderança passando pela cultura e pela globalização, o tratamento das culturas e de suas relações com os processos gerenciais e organizacionais se encontra nos lugares reais de trabalho, onde ocorrem os movimentos de transferência e inclusão de pessoas na organização.

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·   Mundialização ou Globalização

A expressão designa o movimento das comunicações globalizadas que se atualiza e se fortalece com o passar do tempo. A gestão das pessoas passa a fazer parte do complexo de competências previsto e exigido no âmbito das relações organizacionais interculturais. Aprender a gerir nesse contexto, isto é, como gerir a aldeia global e o mosaico multicultural que a ela corresponde, será o destino principal dos que compõem e gestionam a nova organização multicultural.


·   Inteligência Cultural

Novos contingentes migratórios desafiam as organizações para encontrar a melhor forma de cumprir o compromisso de adaptação e viabilizar sua participação na sociedade principalmente por meio da inserção no mundo do trabalho, da qualificação profissional e adequação de habilidades laborais pré-existentes. Recursos teóricos e práticos oriundos da gestão transcultural podem ajudar na abordagem, compreensão e tratamento da experiência da população recém-chegada em território estrangeiro e ainda desconhecido, assim como na integração bem-sucedida pela via do trabalho. Liderança transcultural, mosaico multicultural, cultura, gestão intercultural, talentos expatriados e repatriados são conceitos que podem se tornar recursos e estratégias nas novas organizações que acolhem, integram e desenvolvem potenciais e que desenham um novo modelo de gestão de recursos humanos.

Esse mundo como uma aldeia global, caracteriza a situação atual com a onda migratória na Europa. Daí surge o conceito de “inteligência cultural”, recurso essencial ao bom desempenho de gestores que fazem parte dessa nova organização que aceita o desafio da acolhida, mas também quer eficácia e prosperidade. Há poucos gestores que, no seu dia a dia, vivenciem somente uma realidade cultural específica. De um lado, exigências globais, de outro, exigências locais, mas todas com implicações para a eficácia de modelos gerenciais adotados nas diferentes situações que se apresentam nas organizações e nas sociedades de migrantes.

O conceito de “inteligência cultural” é uma aptidão e uma competência vital para aqueles que desejam melhor compreender os modos e ritos sociais dos países anfitriões e pode ser apropriado para as novas situações em que se lida, nas organizações em território nacional com realidade semelhante de expatriados.

O Desafio dos Novos Colaboradores

Os novos colaboradores imigrantes devem ser vistos como tendo valor de integração independente da possibilidade de retorno ao país de origem, seguindo-se o mesmo critério de um novo colaborador local, para quem a entrada na empresa não se trata, em princípio, de contribuição temporária. Ao contrário, a experiência cultural atual deverá servir ao colaborador para aumentar sua eficácia no país/organização anfitriã e contribuir com seu eventual ajustamento quando e se houver repatriação.

Somente desse modo se poderá construir uma verdadeira experiência de trabalho fundamental para que haja efetiva integração e o imigrante se sinta parte da nação/organização acolhedora.

*Texto escrito em Português do Brasil.

 

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Comentários (3)

  1. Vladson Chaves

    Esse desafio de lidar com multi culturas deve ser mais complexo, acredito, no velho mundo (Europa), dado que, embora os países sejam menores em territórios, são muito fortes e antigos seus laços culturais, com pouco inserção ou migração entre eles comparado ao que ocorreu nas Américas e Oceania, por exemplo, que tiveram miscigenação desde seu entendimento como nações independentes

    1. Antonio Tupinambá

      Aqui falamos principalmente da “cultura organizacional”. Até mesmo internamente, como parte de uma cultura nacional e refletindo-a, as organizações esperam que seus novos colaboradores atentem a suas normas culturais e promovem programas para que isso ocorra mais facilmente, o que pode render melhores frutos para ambos, organização e novo integrante. Não há necessariamente uma integração automática. Não é muito diferente no que ocorre com pessoas oriundas de outras culturas nacionais. O processo é semelhante, apenas atentando a uma maior complexidade para que essa troca ocorra efetivamente. Vale lembrar que é necessário considerar que para esse novo integrante vão pesar os seus elementos culturais de fora da cultura organizacional e nacional. Quanto à diferença na dificuldade em um país do velho ou novo mundo para lidar com essas multiculturalidades (há controvérsia quando se pensa no quesito inserção organizacional) pode ser diluída numa estratégia organizacional correta que não subestime a cultura nacional de origem.

      1. Vladson Chaves

        Obrigado pelos esclarecimentos.

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